Tive três experiências com o objeto que esteve comigo: o primeiro no Barracão Maravilha Arte Contemporânea, o segundo na minha casa e o terceiro nos jardins do MAM. Em todo o processo aconteceram muitas situações.
Busquei o objeto na casa do Ricardo e não sabia muito bem o que ia fazer com ele, mas achei que poderia ser interessante levá-lo para o Barracão.
O Barracão é um espaço onde os artistas Zé Carlos Garcia, Natali Tubenchlak, Robson Viana e Hugo Richard produzem seus trabalhos, convidando outros artistas para exposições e conversas. Eu tinha começado a fazer parte do grupo como produtora e ainda estávamos organizando o lugar.
Pensamos em usá-lo como mesa durante um tempo, já que não tínhamos uma. Fiquei alguns dias sem ir no espaço e quando voltei lá estava ele acochoado, completamente forrado de preto e com rodinhas - virou um sofá. Foi no mínimo curioso ver o objeto que até então era branco e gélido, transformado num aconchegante e elgante assento.
Após algumas especulações, a ação ficou a critério de quem tivesse a iniciativa de fazer algo com ele.
Era interessante na abertura de uma exposição vê-lo ocupado por várias pessoas sentadas, passando despercebido por alguns artistas e sendo reconhecido em meio a dúvidas por outros.
E ficava no ar para mim as seguintes perguntas: Será que é certo mudar a cor dele? Será certo torná-lo tão acolhedor? A forma é reconhecida, mas o material não. Isso é correto? Posso fazer o que eu quiser com ele... Mas posso mesmo?
Ao mesmo tempo em que eu achava maravilhoso aquilo tudo ficava incomodada, como se o objeto estivesse sufocado. Havia uma alteração estética no objeto e aquilo deixava-me um pouco aflita. Após essa exposição o objeto ficou guardado um tempo. Até que parei de trabalhar no Barracão e tive que tirá-lo de lá para repassar a outra pessoa. Fui buscá-lo com o Beto (meu marido) para levá-lo andando para casa, apoiando-o numa bicicleta. O caminho foi longo da rua Gomes Freire ao Castelo. Com brigas porque o objeto caía e porque um achava que o outro não estava segurando direito; com gargalhadas porque estávamos sendo olhados pelas pessoas na rua; e com direito a machucados.
Na segunda etapa, dias depois convidamos dois amigos para participar de outra experiência artística. Eu sentia a necessidade de fazer mais alguma ação antes de passá-lo para o Pablo.
Num domingo eu e Beto tiramos todo o forro preto. Era como se retirássemos uma pele, libertássemos o objeto e livre ele pudesse passear, tomar sol.
Convidamos o Pablo e o Patrik para participar do passeio com o objeto nos jardins do MAM. Fomos, então, num domingo de sol. Saímos da minha casa, atravessamos a passarela, sentamos no pilotis, na marina e, por fim, na grama.O objeto passeou por onde passeamos em vários domingos.
Nesse percurso conhecemos dois meninos gêmeos, com aproximadamente 9 anos, que se divertiram tirando fotos com a gente e com o objeto, e encontramos dois amigos. A amiga que encontrei tinha visto esse mesmo objeto numa escola em Macaé, de onde ele tinha vindo quando chegou em minhas mãos. Interessante encontrar uma pessoa que o viu na situação anterior e na atual.
Percebi que ele foi tratado ora como um simples objeto que precisávamos transportar, ora como animal de estimação, como obra de arte, como assento... É, de novo como assento.
Tiramos o forro, voltamos à sua cor (com algumas interveções de furos e espuma), mas usá-lo para sentar iniciou e encerrou a ação. A necessidade de sentar foi constante.Em nenhum momento ele esteve vazio na exposição e, no passeio, todas as vezes que o deitamos nós sentamos.
Ainda estou refletindo sobre o que foi essa experiência, o que significa isso.
Muitas coisas aconteceram. Preciso pensar mais.